Proteção de dados vira teste da adoção de IA nas empresas
Clipagem
28 de setembro de 2026
Uso de inteligência artificial avança nas organizações, enquanto exposição de informações sensíveis pressiona empresas a rever regras de acesso, segurança e governança
A inteligência artificial avançou mais rápido do que as regras criadas para controlá-la dentro das empresas. Em um ano, a parcela de usuários que acessam aplicações de IA semanalmente passou de 34% para 59%, segundo levantamento da Netskope. No mesmo período, o volume médio de prompts mais que triplicou.
Com a tecnologia mais presente na rotina das organizações, a discussão começa a ir além da adoção. O avanço amplia a necessidade de identificar quais dados estão sendo utilizados, quem pode acessá-los e o que acontece com essas informações quando são inseridas em ferramentas de inteligência artificial.
De acordo com André Xavier, CEO da BHS, empresa de tecnologia e segurança da informação com mais de três décadas de atuação, parte do risco está justamente no uso cotidiano dessas ferramentas. “O risco aparece quando o profissional usa uma ferramenta para ganhar produtividade, mas não sabe o que acontece com aquela informação depois que ela é inserida ali”, afirma o executivo.
A falta de governança não é um problema restrito ao Brasil. O relatório Cost of a Data Breach 2025, da IBM e do Ponemon Institute, mostrou que 63% das organizações analisadas que sofreram violações de dados não tinham uma política de governança de IA ou ainda estavam desenvolvendo uma. Entre as empresas que registraram incidentes de segurança relacionados à IA, 97% disseram não contar com controles adequados de acesso à tecnologia.
A preocupação aumenta quando a IA deixa de ser utilizada apenas em ferramentas isoladas e passa a se conectar aos sistemas e às bases de dados das próprias empresas. Nesse estágio, incorporar novas aplicações também exige definir como elas acessam e utilizam informações acumuladas ao longo de anos de operação.
Para Paulo Cacciari, CEO da Deyel no Brasil, plataforma de desenvolvimento low-code com inteligência artificial, a modernização precisa considerar a preservação desses dados. “Muitas organizações utilizam essas tecnologias há décadas e enfrentam o desafio de modernizar seus sistemas sem comprometer informações críticas para o negócio. Nossa proposta é justamente facilitar essa transição”, afirma.
Em setores regulados, essa preocupação ganha peso adicional. Instituições financeiras operam sob exigências específicas de proteção de dados e respondem tanto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) quanto ao Banco Central. Nesses casos, um vazamento não representa apenas um incidente técnico: pode envolver responsabilidades regulatórias, contratuais e reputacionais.
Ainda assim, a pressão por produtividade faz com que a IA avance sobre atividades que dependem do acesso a dados corporativos antes que todas as empresas tenham regras consolidadas para esse uso.
IA avança sobre dados corporativos
O desafio também aparece quando a tecnologia passa a consultar informações compartilhadas entre diferentes áreas da organização. Contratos são um exemplo: concentram condições comerciais, obrigações, dados de fornecedores e registros utilizados por jurídico, compras, suprimentos e operações.
Nesse caso, o controle deixa de envolver apenas o acesso ao documento original. À medida que ferramentas de IA passam a localizar, relacionar e apresentar dados desses arquivos, cresce também a necessidade de organizar como essas informações circulam dentro dos sistemas.
Segundo Cíntia Oliveira, country manager da Webdox no Brasil, empresa especializada em gestão do ciclo de vida de contratos, esse é um dos pontos que ganha importância conforme a tecnologia entra nesses processos. “A inteligência artificial é um componente importante desse processo, mas o principal avanço está na capacidade de integrar essas informações e oferecer rastreabilidade, governança e acesso rápido aos dados ao longo de todo o ciclo contratual”, afirma.
Para Xavier, essa mudança tende a separar iniciativas pontuais de projetos capazes de ganhar escala. “Durante muito tempo, a pergunta foi o que a inteligência artificial conseguia fazer. Agora, as empresas também precisam perguntar com quais dados ela está fazendo isso, onde essas informações estão e quem consegue acessá-las. É essa estrutura que permite transformar a experimentação em operação”, finaliza.
